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Por que sua marca parece estrangeira e quanto isso está te custando

Quase ninguém decide parecer de fora. A marca vai ficando importada aos poucos, uma referência de cada vez, até o dia em que o cliente entra no site e não reconhece nada do que ele viu na sua empresa de verdade.

A marca Araguari Alojamentos aplicada em vários pontos de contato: uma marca que carrega o nome da própria cidade sem pedir desculpa por isso
Araguari Alojamentos, no portfólio do Fortunato Estúdio. Uma marca que carrega o nome da própria cidade e não perde nada de solidez por causa disso.
Resumo rápido

Parecer estrangeiro raramente é uma escolha. É o resultado de anos copiando referência de quem também estava copiando.

O sinal mais comum não está no nome. Está nas fotos de pessoas que não se parecem com o seu cliente.

Marca importada entra num terreno onde você é sempre a segunda versão de alguém. E segunda versão desconta preço.

Sua vantagem real, que é entender o cliente daqui melhor que qualquer empresa de fora, fica invisível quando a comunicação finge outra origem.

Inglês no nome não é o vilão da história. Insegurança no lugar de decisão é.

Assumir a origem não significa verde e amarelo. Significa usar como argumento o que só a sua empresa tem.

Na maioria dos casos, o conserto começa no discurso e não no logotipo.

Recebo esta cena com uma frequência que já não me surpreende. Empresário de indústria, quinze anos de operação, cliente fiel, produto que o mercado respeita. Ele abre o site no notebook para me mostrar a empresa e, antes de eu perguntar qualquer coisa, se antecipa: "eu sei, tá parecendo aquelas empresas gringas, a gente fez assim porque passa mais credibilidade". Ele sabe. Ele só nunca fez a conta do que essa escolha custa. E o custo aparece exatamente onde ele não estava olhando, que é na conversa de preço.

O reflexo que ninguém escolheu ter

Ninguém senta numa reunião e decide "vamos parecer uma empresa da Europa". O caminho é mais lento e mais inocente que isso.

Começa na hora de fazer o site novo. Você procura referência, e referência boa está toda em inglês, em portfólio internacional, em rede social de estúdio de fora. Você salva o que achou bonito. Passa isso para quem vai executar. Quem executa também salvou referência do mesmo lugar. O texto sai traduzido de um jeito que ninguém fala. A foto vem de banco de imagem, porque a foto real da sua fábrica estava mal iluminada. Dois anos depois, você tem uma marca competente, bem acabada, e absolutamente igual a outras trezentas.

Repare que em nenhum momento houve uma decisão errada. Houve ausência de decisão, e o vazio foi preenchido com o que estava disponível. É esse o ponto que me interessa neste texto, porque ele muda o tipo de conserto necessário. O problema não é estético. É que a marca ficou falando de uma empresa que não é a sua.

Você não copiou uma marca estrangeira. Você copiou alguém que já estava copiando. Nesse caminho, o original ficou a três gerações de distância.

Escrevi um livro inteiro sobre a raiz disso, o Branding pra BraSileiro, porque essa é a decisão mais cara que vejo o empresário brasileiro tomar sem perceber que está tomando. A tese curta: a gente aprendeu a construir marca para parecer de outro lugar, e quem paga essa conta é a margem.

Seis sinais de que a sua marca soa importada

O nome é o sinal mais óbvio, e por isso mesmo é o menos útil para diagnóstico. Tem empresa com nome em inglês que soa completamente brasileira, e tem empresa com nome em português que parece ter sido montada em outro continente. Os sinais de verdade são estes.

1. As pessoas nas suas fotos não são os seus clientes

Este é o mais frequente e o mais fácil de corrigir. Abra o seu site e olhe as pessoas nas imagens. Elas se parecem com quem entra na sua loja, liga no seu comercial, recebe a sua equipe? Se a resposta é não, você está usando pessoas de mentira para vender uma coisa verdadeira. O cliente não pensa isso de forma consciente, mas ele percebe que não está sendo retratado ali.

2. O texto precisa de palavras que o seu cliente não usaria

"Soluções integradas de alta performance para o segmento." Leia essa frase em voz alta e imagine dizendo isso para o dono da empresa que compra de você, na mesa dele, tomando café. Você não diria. Ninguém diz. O vocabulário importado é o que mais rápido cria distância, porque ele obriga o cliente a traduzir antes de entender, e ninguém compra o que precisa traduzir.

3. A sua marca poderia ser de qualquer país

Faça o exercício de tapar o nome e ler o resto. Se nada no material indica onde essa empresa está, quem ela atende e de que jeito ela trabalha, o que você tem é uma marca neutra. Neutralidade parece segurança. Na prática, é a decisão de não ser lembrado por nada específico, que é o assunto de como fazer sua empresa ser lembrada.

4. Existe uma versão sua para o mercado e outra para o cliente antigo

Esse sinal é o mais revelador de todos, e aparece no atendimento. A empresa fala uma língua corporativa no site e outra, muito melhor, no WhatsApp com o cliente de dez anos. Quando isso acontece, a marca oficial está atrapalhando a marca real. O que funciona está na conversa, e você está escondendo isso da porta para fora.

5. Sua origem aparece como desculpa, não como argumento

"A gente é uma empresa do interior, mas atende com padrão internacional." Todo "mas" nessa frase é uma confissão. Origem tratada como limitação a ser compensada é origem escondida, e o cliente escuta a insegurança antes de escutar o argumento.

6. Ninguém acha você quando procura pelo seu nome

Este é o custo mais concreto e o mais ignorado. Nome emprestado costuma colidir com nome de empresa de fora, e o Google entende as duas como a mesma coisa ou escolhe a maior. Quem paga é você, que fica invisível na busca pelo próprio nome. Detalhei essa mecânica em nome em inglês ou português, porque o assunto merece uma decisão consciente e não um palpite de fim de reunião.

A conta: onde exatamente isso te custa dinheiro

Aqui é a parte que o empresário quer ver, e que costuma não estar em nenhum artigo sobre o tema. Não vou dar percentual nem prometer aumento de faturamento, porque isso seria invenção. Vou apontar quatro lugares onde o dinheiro vaza, e você vai reconhecer pelo menos dois na sua operação.

Você entra num terreno comparável. Marca genérica compete em critério genérico, e critério genérico converge para preço. Quando o seu material comunica a mesma coisa que o do concorrente, o cliente faz a única pergunta que restou, que é quanto custa. É o mecanismo que descrevi em como parar de competir por preço, visto de outro ângulo: a marca importada é uma forma sofisticada de se colocar na fila do desconto.

Sua maior vantagem fica invisível. Você conhece o cliente brasileiro. Conhece o problema de logística daqui, o prazo real daqui, a forma de negociar daqui, o que dá errado no inverno daqui. Isso é vantagem competitiva difícil de copiar, e vale muito para quem compra. Uma comunicação que finge outra origem esconde justamente esse ativo. Você está pagando para ocultar aquilo que só você tem.

Você perde a proximidade, que é o motivo de muita venda. Boa parte do cliente de pequena e média empresa compra pela relação, pela sensação de que "essa gente entende a minha realidade". Linguagem distante quebra isso antes da primeira conversa. Aí você precisa de mais reuniões para fechar o mesmo negócio, e reunião extra é custo mesmo quando ninguém contabiliza.

Você fica sem memória. Marca que parece com todas é lembrada como nenhuma. E marca não lembrada precisa ser reapresentada em cada ciclo de compra, o que joga todo o custo da venda para o time comercial, para sempre.

Marca genérica não é neutra. Ela é uma escolha de disputar no único terreno onde o cliente decide por preço.

O que não é o problema

Preciso separar isso com cuidado, porque a leitura preguiçosa deste texto viraria "use português e coloque uma arara no logotipo". Não é nada disso.

Inglês no nome não é erro em si. Existem casos em que o termo do setor é em inglês, em que o público real está fora do Brasil, em que a palavra funciona perfeitamente na boca do cliente. O erro é escolher o idioma como atalho de credibilidade, antes de existir uma decisão de posicionamento.

Estética sóbria não é estética importada. Marca limpa, tipografia bem resolvida e pouca cor não têm nacionalidade. O que denuncia a cópia não é o refinamento, é a ausência de conteúdo próprio dentro dele.

Querer parecer sério não é vergonha. A intenção é legítima. O problema é o meio escolhido. Seriedade se comunica com clareza, com consistência e com prova, e não com sotaque emprestado.

Atender mercado internacional não obriga a esconder de onde você é. Muita empresa brasileira exporta justamente porque é brasileira. Nesse caso, disfarçar a origem elimina o argumento de venda.

Três testes para fazer hoje, sem contratar ninguém

Você não precisa de um projeto para descobrir se tem esse problema. Precisa de vinte minutos.

Teste do cliente antigo. Ligue para um cliente que compra de você há muitos anos e leia para ele o primeiro parágrafo do seu site. Depois pergunte: "isso parece a gente?". A resposta costuma vir com uma pausa antes, e a pausa já é o diagnóstico.

Teste da troca de logo. Pegue o seu material de venda e troque mentalmente o seu logotipo pelo do concorrente. Se continua fazendo sentido, o material não é sobre você. Ele é sobre a categoria.

Teste do WhatsApp. Compare o texto do seu site com a última mensagem boa que o seu time mandou para um cliente explicando o serviço. Se a mensagem do WhatsApp é mais clara, mais convincente e mais sua, a sua marca já existe, ela só não foi promovida a oficial ainda.

Se os três testes acusaram o mesmo problema, vale ler também os sintomas listados em marca mal posicionada, porque parecer estrangeiro quase nunca vem sozinho.

Assumir a origem sem virar caricatura

Aqui está o medo real de quem chega até este ponto do texto: "se eu assumir que sou daqui, vou parecer pequeno". Entendo o medo e discordo dele.

Origem em marca quase nunca é símbolo nacional. Não é bandeira, não é cor de time, não é referência a festa popular em um negócio que não tem nada a ver com festa. Isso é decoração, e decoração é o que faz uma marca parecer barata, exatamente como a cópia mal feita de referência importada faz.

Origem, em posicionamento, é outra coisa: é o repertório que a sua empresa acumulou trabalhando neste país, com este cliente, resolvendo este problema. É a proximidade que a empresa de fora não tem. É o jeito de fazer negócio que o seu cliente reconhece porque é o dele. Foi isso que fizemos com a Ami, no agro, e o raciocínio completo está em brasilidade não é fraqueza. A marca não ficou folclórica. Ficou específica, e específico é o oposto de comparável.

Tem um detalhe que gosto de dizer em reunião. Marca com origem assumida tem menos concorrente, por definição. Quando você deixa de disputar o lugar de "empresa moderna e internacional", que tem fila, e passa a disputar o lugar de "a empresa que entende o produtor daqui", a fila diminui muito. O que parece encolhimento é concentração, e é dela que sai preço melhor. Sobre essa escolha de terreno, vale como se diferenciar da concorrência.

Por onde começar a virar isso

A boa notícia é que a maior parte do conserto não é de design. É de decisão e de discurso, e você pode começar sozinho.

Primeiro, escreva a frase. Para quem a sua empresa serve, por que ela deveria ser escolhida e o que ela deixa de disputar. Uma frase, sem adjetivo. Se ela não sai, o problema é anterior à marca, e o caminho está em como definir o posicionamento da sua empresa.

Depois, troque as fotos. Fotografia real da sua operação, das suas pessoas, do seu cliente, com autorização. Essa é a mudança mais rápida e mais visível que existe, e não depende de projeto nenhum.

Reescreva com as palavras que você usa na mesa. Pegue o texto do site e corte tudo que você não falaria em voz alta. Vai encurtar bastante, e vai ficar melhor.

Só depois olhe o desenho. Com a decisão tomada, fica fácil ver o que na identidade contradiz a nova frase, se contradiz. Muitas vezes o logotipo sobrevive tranquilamente. Quando não sobrevive, o caso de projeto se justifica sozinho, e você não precisa de ninguém para te convencer.

Fecho com o que eu disse para o empresário da indústria que abriu este texto, depois de percorrermos esse caminho juntos. A marca dele não estava feia. Estava contando a história de outra empresa. E o mercado, que não é bobo, tratava aquela empresa exatamente como trata qualquer coisa que já viu antes, ou seja, pedindo desconto. No dia em que a marca voltou a falar da fábrica que existe de verdade, com as pessoas que trabalham lá e o jeito que eles resolvem problema, a conversa de venda mudou de assunto. Continuou sendo difícil vender. Só parou de ser sobre preço.

Perguntas frequentes

O que empresários mais perguntam quando descobrem que a marca ficou com cara de importada.

Como saber se a minha marca parece estrangeira?
Faça o teste da apresentação em voz alta. Leia o texto do seu site para um cliente antigo, aquele que já compra de você há anos, e observe onde ele franze a testa. Depois olhe três coisas: as fotos, o vocabulário e as referências visuais. Se as pessoas nas imagens não se parecem com quem compra de você, se a sua oferta precisa de palavras que o cliente não usaria numa conversa e se a sua identidade poderia ser de uma empresa de qualquer país, a sua marca está comunicando uma origem que não é a dela. Isso não tem nada a ver com o idioma do nome. Tem a ver com a marca descrever uma empresa que não existe no endereço em que você atende.
Marca com nome em inglês parece mais profissional?
Parece mais parecida, o que é diferente de parecer mais profissional. O inglês entrou na marca de muita empresa brasileira como atalho de credibilidade, e o atalho funcionou enquanto era raro. Hoje o mercado está cheio de nomes assim, então o efeito de sinalização praticamente sumiu e sobraram os custos operacionais: cliente errando a pronúncia, cliente errando a grafia na busca e a sua marca disputando atenção com homônimos de outros países. Existe caso em que o inglês é a decisão certa, principalmente quando o público-alvo real é internacional ou o termo técnico do setor já é em inglês. O erro é escolher o idioma por insegurança, antes de ter decidido o posicionamento.
Assumir a identidade brasileira não deixa a marca com cara de barata?
O que deixa uma marca com cara de barata é a cópia mal feita de algo que não é seu, e não a origem. Existe uma diferença enorme entre brasilidade como decisão de posicionamento e brasilidade como clichê decorativo. Clichê é verde e amarelo aplicado sem motivo, é o carnaval usado como recurso gráfico em um negócio que não tem nada a ver com festa. Decisão é usar aquilo que a sua empresa tem de mais verdadeiro, a relação de proximidade com o cliente, o jeito de resolver problema, a maneira brasileira de fazer negócio, como o terreno onde a concorrência não consegue entrar. Marca com origem assumida e execução bem feita comunica solidez. A que parece barata é a que se apresenta como uma empresa que ela não é.
Vale a pena mudar a marca só porque ela parece importada?
Na maioria dos casos que atendo, não é preciso trocar nada de nome nem de desenho. O que precisa mudar primeiro é a decisão de posicionamento, ou seja, para quem a empresa serve, por que ela deveria ser escolhida e o que ela deixa de disputar. Muita marca parece estrangeira porque nunca decidiu isso e foi preenchendo o vazio com referências de fora. Depois de decidir, uma parte grande do problema se resolve no discurso, nas fotos e no texto, sem mexer no logotipo. Quando o desenho ou o nome realmente contradizem a decisão nova, o caso de projeto aparece por si só e fica fácil de justificar.
Como usar a origem brasileira na marca sem cair no clichê?
Comece pelo que já é verdadeiro no seu negócio antes de pensar em estética. Origem em marca raramente é símbolo nacional: é a relação que você tem com o cliente, o problema local que você entende melhor que qualquer empresa de fora e o repertório que você acumulou trabalhando aqui. A partir daí a parte visual e verbal fica simples, porque ela passa a ter o que traduzir. O caminho contrário, escolher a estética primeiro e procurar um significado depois, é o que produz a marca decorativa que ninguém lembra. Origem é argumento de venda, não tema de decoração.

Escrevi um livro inteiro sobre essa conta que o empresário brasileiro paga sem perceber.

Em Branding pra BraSileiro eu mostro por que a gente aprendeu a construir marca para parecer de outro país, quanto isso custa em preço e em memória, e como transformar a própria origem na vantagem que ninguém copia. É leitura direta, feita para dono de empresa e não para designer.

Conhecer o livro
Victor Fortunato
Victor Fortunato
Estrategista de marca e especialista em posicionamento, fundador do Fortunato Estúdio. Já assinou mais de 80 marcas. Nenhuma faliu. Autor de Branding pra BraSileiro.